Uma nova possibilidade em prol de um link entre artistas de toda a massa nacional. Processo coletivo. Um selo. Uma pá di gente lavrando. Fazedores contemporâneos (nem os melhores, nem os mais aptos, mas os que responderam ao chamado) em mil inserções diferentes, todos com cara e braço para segurar o bandido, espantar a onça e bradar na passeata. EIXADA!

18.1.11

Processo do Consenso

No ônibus
o aroma vivo e salgado:
vômito derramado pela senhora ao lado.

A porta do banheiro luziu como o fim da gruta, recrutando os passageiros em seu ninho fora do tempo e do espaço. Os homens, em conselho, decidiram então responder com o asco discreto, generalizado e com poucos olhares de censura. A única que não participou da reunião foi a senhora, é claro. Todos regressaram pelo portal e se assentaram em ordem, pra que o tempo voltasse a correr pra frente. Com o perdão da digressão: imagine em todo mundo a quantidade de conselhos que há a cada vez que um consenso precisa ser formado. É por isso que temos a impressão de que o futuro é infinito.

Dentro e fora do tempo
o cú do alquimista botava ouro.

25.10.10

...Eu to querendo esquecer e você me vem lembrar todo tempo, para com esse papinho de desculpa esfarrapada, que isso não cola, nem tem graça. Quer me ajudar a esquecer?! Para de lembrar dessa porra toda. Deixa o lixo no lixo. Deixa esse passado no limbo. Certas desculpas não valem de nada...
Quando te contei daquele sonho, lembra? Não prestou atenção nas minhas palavras, imaginou naquele momento uma história dessas pra contar. Mas acho que não terá nada parecido pra dizer daqui há alguns anos. Vive de passagem, de rasas relações, de imediatismos e alívios... não sabe o que intensidade.
Não vê sentido naquilo que é único... não te interessa ser único. E daí se sou uma muleta ou um abrigo qualquer?!

Quando os gostos passam a ser, como aquele gosto de morango parecido com groselha... ou será franboesa?!... quando tanto faz o quente ou o frio, quando o preço caro faz algumas coisas perderem o sentido?!... que vontade é essa?

17.10.10

A sensação da espera me perturba
Quero ser tomada num súbito
Retirada sem aviso, nem licença do posto que me ponho em guarda, à defesa não sei de que sacrifício
Faço quase um ofício desse vicio dos ponteiros
E dos olhos atentos aos movimentos de ameaça
Alcancei a liberdade dos relógios em um momento
E como não pude com essas asas falsas reverter os ponteiros,
Não vi sentido ficar sem máscara
Vesti de novo a farda
E convivo acomodado com o medo.

4.10.10

19.6.10

Resenha Fundamentação 2010 – 1. Estudos do Espaço. Franz Manata

Raísa Inocencio
Parte II – O exercício experimental da liberdade.
A apresentação do trabalho se baseia, nos próprios pensamentos do Hélio Oiticica. Na primeira frase do texto já se define toda a nossa proposta: "impossibilidade de experiências em galerias e museus", ou seja, o nosso seminário não poderia ficar somente numa apresentação entre quatro paredes, fechada e com slides. É contingente a experiência na rua com parangolés para que se sinta o que se sente quando se fala de Hélio Oiticica. Toda a experiência que as seis pessoas do grupo guardaram para si vai valer tão somente para a apresentação quanto para a vida toda e é nisso que o Hélio acreditava, que quando se sente arte, se sente vida, não só pra uma propaganda ou um consumo fetichista e sim um sentir, uma memória viva (quase em carne viva) da arte, as duas se misturam: "uma frase de Fernando Pessoa: tudo o que em mim sente, é pensamento".
Estes pensamentos consistiam em fazer de suas obras de arte vivências, experiências com um público livre de julgamento ou um julgamento livre de conceitos pré-fabricados. Junto a isso uma necessidade de sua época era formar uma cultura essencialmente brasileira, com os elementos marcantes da cultura popular, por exemplo, a Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira: "a Mangueira era uma experiência subjetiva de libertação dos complexos da classe média e do intelectualismo excessivo, uma sensação de exaltação..." Impressiona muito a Helio o fato das classes mais pobres serem tão ricas de serenidade cultural, sem o apelo do estrangeiro nem o excesso de informação. O intuito de trabalhar com artigos tipicamente brasileiros, a dizer papagaios, chita, pedras brasileiras, etc, seria também fazer uma crítica social do que se vivia a ditadura, repressão e a falta de atenção as classes mais pobres, e não tornar os elementos artigos de luxo ou artigos de um estereótipo do que seria o Brasil. O propósito da Arte em Hélio Oiticica é fazer do mundo o seu palco.
É samba, puro e simplesmente, depois ele vai sentir o mesmo pelo já iniciado rock'n'roll quando ele mora em Nova York.Tanto é que depois o próprio Hélio vai escrever um texto chamado Tropicália, do qual o assunto vem a tratar sobre a comercialização dos "elementos brasileiros" e não levando a questão no seu cerne: "ele condenava a folclorização, a redução da 'raiz Brasil' a certas imagens brasileiras".
Que cada pessoa possa construir ela mesma o seu parangolé e que dance e que critique o que lhe machuque como injusto. Não somente padronizar em figuras comercializáveis e tampouco prender a memória de experimentação num museu.
Por isso o grupo sentir e se divertir fazendo parangolé.

Por mais que divagamos e conceituamos o trabalho de Hélio Oiticica, só se é sentido quando você o experimenta na sua mais profunda realidade, quando você veste e quando você dança, ou seja, quando você vivencia. Há uma incorporação, um mergulho corpo-obra, que o expectador se torna a própria obra: "não se trata assim o corpo como suporte da obra, pelo contrário é a total incorporação, é a incorporação do corpo na obra e a obra no corpo." Quando se sente um parangolé, você não mais esta ali para dizer que a Arte é luxo de poucos. A possibilidade de fazer do próprio corpo juntos a uns tecidos coloridos, mais o riso e a dança, ingredientes simples e tão livres de sentir a ponto de causar uma subjetividade diferente a cada um são fundamentais para o parangolé o riso, a dança, o colorido, o livrar-se de receios alheios.

Tem que cantar.

Hélio nos faz sentir suor, músculo além do pensar do deduzir do conceituar, é sentir feito sonho.

É sentir feito carne da qual somos feitas.

Dizem que é um mistério saber onde acaba o físico e começa o pensamento, onde se encontra o neurotransmissor e a sensação, por exemplo, de felicidade, quase que como um abismo, meu chute é que na hora do gozo, quando junto a uma carne você tem uma sensação de prazer imenso, esse abismo se encontra e é na obra do Hélio Oiticica que vamos sentir esse gozo e esse abismo tão próximos: é bem onde há o encontro entre o biológico e o psicológico, não diria corpo e alma, mas diria suor e prazer, elementos que estão juntos e separados pelo o que acontece de forma introspectiva e o que acontece sensorialmente. É nesse ponto que o parangolé une.
Corpo suor mente prazer.

Texto escrito ao som de: Air, Cidadão Instigado, The Doors e Fellini.

11.6.10

Meus Óculos

Xícaras estilhaçadas de chá
colheres mórbidas de açucar
sangue preto de homem coagulado

vago mais

panos sujos de louça
quatro pés em escorço

onde deixei meus óculos?
não os vejo há dois anos

27.4.10

...um amontoado de nomes no espelho me acordaram essa manha por tentar me enxergar no espelho
era preciso, necessário aquele reflexo... mas não conseguia ver meu rosto, apenas os nomes, por vezes indecifraveis...e sim! Eram seus!... e por isso tinham importância...
tentei juntar aquele quebra-cabeças de palavras soltas

os pedaços dos sentimentos engatados nelas... o calor, a respiração profunda... e uma certa furia é o que carregavam cada uma delas

posso apagar aquelas palavras agora do espelho

não posso apagá-las de dentro de você

nem de mim.
Eixadas: Deborah Icamiaba, Fael du Lobo, Gilson Moura Jr, Guto Leite & Guilherme Orosco, Heyk Pimenta, Jô Rodrigues, Karina Rabinovitz, Marcelo Nietzsche, Mariana de Ana, Na sala do sino, Paloma Kliss, Pedro Chammé, Philippe Bacana, Poesia Maloqueirista, Poetas treze do Santo amargo e Largo 13 de maio, Rafael Mannheimer, Raísa Inocêncio, Tulio Malaspina, Victor Meira, Daniel Minchoni, Eveline Gomes.