Uma nova possibilidade em prol de um link entre artistas de toda a massa nacional. Processo coletivo. Um selo. Uma pá di gente lavrando. Fazedores contemporâneos (nem os melhores, nem os mais aptos, mas os que responderam ao chamado) em mil inserções diferentes, todos com cara e braço para segurar o bandido, espantar a onça e bradar na passeata. EIXADA!

12.12.09

Ninguém se lê - reflexão acerca dos processos coletivos

É um recorte do blog Maná Zinabre, texto publicado nesse domingo, mesmo dia do lançamento da Eixada, para nem menos nem mais que refletir e chupar diretrizes apara a nossa ação coletiva, e o desenvolvimento de nosso ofício.

A coluna completou um ciclo. Durante um ano trouxe a público o que me importunou, quis que os importunasse também. Os coletivos e as ações individuais que me chamaram a atenção, as iniciativas e apostas nas quais apostei e as perguntas que me tiraram o sono, tudo isso eu arranjei um jeito corrido e mal escrito de mostrar. E como balanço, trago um balanço. Na reta final deste 2009, vieram por diversas fontes novas, apesar de já vividas na prática, questões.

Primeiro. Ninguém se lê. O blog serviu nem de vitrine, já que não teve acesso algum. Continuamos não nos conhecendo, e continuamos ainda mais longe de estabelecer qualquer troca a níveis de influência ou linguagem. Isso não é um problema desta casa. E esse é um dos temas que trago.

Começo com Victor Turner. O cara é da antropologia, inglês, produziu durante uns 50 anos, tem uma obra vasta, mas vou trazer só um conceito dele, o de liminoide. Pro Turner, com a Revolução Industrial houve um deslocamento da ação de produção simbólica, ela deixa de ser parte da coluna vertebral da vida social (religião, trabalho, família) e vai para as margens da vida social (leia-se: as ciências modernas, a arte, o entretenimento). Esses seriam os gêneros liminoides, fenômenos de influência individual, mas de desdobramentos de massa; que estão relacionados à mercados de entretenimento, e que sem fazer parte da vida obrigatória do indivíduo, são tomados como parte essencial do cotidiano, já que o único vínculo com esses fenômenos é o do prazer, e do desejo, esses últimos raros na contemporaneidade.

Assim os gêneros liminoides do Turner passam a ser pontos de fuga e ao mesmo tempo produtores de diretrizes para a produção simbólica, para a subjetivação, e interpretação da vida social. Para ele, a reformulação nos valores e princípios da vida social que o fenômeno liminoide pode trazer, pode ter inclusive desdobramentos revolucionários.

Porque eu trouxe esse raio de teoria antropológica pra cá? Por causa disso: pra reafirmar a história de que a arte pode ser transformadora, e nós os artistas de sofá, temos algum papel.

E aí vou à segunda parte da conversa. O papel do artista. Recentemente houve na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, o Seminário Nacional Formação e Estatuto do Artista. Especialmente me chamou a atenção a fala de uma das cuidadoras da Fundação Joaquim Nabuco para assuntos de arte, Cristiana Tejo, ela é novinha, reivindica a geração mangue beat, e encurtando a história, falou muito sobre um aspecto que ela acredita essencial para a postura do artista: o fato de o cara conseguir falar sobre seu próprio trabalho. O artista não precisa ser teórico e crítico de artes mas, saber justificar minimamente os trâmites e os processos experienciais e conceituais que o levaram a concluir o seu trabalho como tal. O artista tem que saber qual é sua questão e quais as etapas de conflito e resolução que traz para essa questão.

Aí volto a seta para nós: no caso específico do cenário em que me encaixo não sei se os artistas não sabem falar sobre o seu trabalho, ou se não querem, ou se lhes falta oportunidade para tal. Se o caso for a primeira resposta ou a segunda, isso é uma merda, já que serve para reificar a ideia de que o gênio, o dom, o inato existem em arte. Posto que essa ideia já é criticada e revista o suficiente para que a deixamos de lado. Se o caso é a terceira resposta, isso também é um merda, porém, parte já de um pressuposto melhor, seja, de que os artistas querem trocar experiências, querem desmistificarem-se, porém ainda não encontram fóruns para tanto, ou seja, já tem a postura de que precisam para pensarem francamente sobre suas questões, mas falta ainda o lugar para que possam pensá-las em público.

Ainda tendo-nos como tema, levanto uma crítica séria à nossa postura, os artistas que estão em volta e dentro desse cenário em que me encaixo, passam muito pouco de público para as bandas que fazem parte do mesmo cenário. E aí me enquandro. Os escritores e artistas visuais não conhecem o trabalho uns dos outros, os músicos e front man’s da cena não trocam a não ser música, falta interação de linguagens e de motivo. Conhece-se o som que faz da turma, mas não as letras e raramente as imagens. Como reivindicar-se coletivo partindo dessa postura? Como continuar querendo público se nem nos prestigiamos uns aos outros, e quando o fazemos não estabelecemos qualquer vínculo de trocas ou crítica ou reflexão acerca do nosso trabalho? Essa é a questão do dia.

Mercado, produção executiva, inserção nos meios em que, como oficiais do ofício a que nos propomos, deveríamos nos inserir, isso fica para a próxima conversa. Feliz ressaca de ano novo.

2 comentários:

  1. Essa provocação tem que estar em todo lugar mesmo.

    Tô digerindo. Logo mais abro o diálogo.

    Muito bom, Heyk.

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  2. A maior virtude de um grupo como esse é a ágora formada pelo coletivo, e a possibilidade que temos de ultilizá-lo bem. Utilizá-lo com propósito.

    Vamo pensar nisso aqui que a gente tem, e numa forma de criar um espaço verdadeiro de relacionamento. Vamo conversar sobre a nossa obra dentro da nossa própria obra, Vamo ler os textos uns dos outros e postar, aqui no blog do EIXADA, opniões, leituras, devaneios e divagações sobre a obra do vizinho. Vamo usar esse amuleto que nós temos - nosso livreto impresso - pra escavar ele, conversar sobre ele até ficar gasto e surrado.

    A gente tem ouro na mão, Eixadas. Não vamo enterrar não. Não vamos partir pro próximo passo sem ter certeza dos nossos propósitos, sem ter batido na carne o bastante.

    Vamos ser um coletivo.

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Eixadas: Deborah Icamiaba, Fael du Lobo, Gilson Moura Jr, Guto Leite & Guilherme Orosco, Heyk Pimenta, Jô Rodrigues, Karina Rabinovitz, Marcelo Nietzsche, Mariana de Ana, Na sala do sino, Paloma Kliss, Pedro Chammé, Philippe Bacana, Poesia Maloqueirista, Poetas treze do Santo amargo e Largo 13 de maio, Rafael Mannheimer, Raísa Inocêncio, Tulio Malaspina, Victor Meira, Daniel Minchoni, Eveline Gomes.